Transformar a Cedae numa empresa moderna, eficiente, transparente, que possa competir com outras empresas privadas, mantendo-se no setor público, não será um esforço isolado. Na França, na Alemanha, na Itália e em outros países, a luta contra o modelo neoliberal e a privatização desenfreada do setor público juntou poderosas forças que tentam construir uma alternativa que, sem negar a globalização, coloque limites à voracidade e frieza dos grupos financeiros internacionais. Que busque o crescimento econômico e não somente a estabilidade e a renda financeira, que crie emprego e não desemprego. Entre a esquerda e a direita, uma terceira via.
Um projeto que aponta para objetivos semelhantes obteve sua primeira grande vitória no Brasil no segundo turno das eleições de outubro passado, quando a esquerda unida a setores do centro conseguiu eleger candidatos ao governo de alguns dos mais importantes estados brasileiros, dentre eles o do Rio de Janeiro.
A passagem de um projeto político para a administração das coisas da vida envolve desafios insuspeitados. Na Europa, aquelas forças estão conseguindo dar uma resposta adequada, construindo uma alternativa viável ao neoliberalismo de Margareth Thatcher. Sucessivas pesquisas de opinião vêm avalizando os governos social-democratas, particularmente o de Lionel Jospin, na França.
No projeto brasileiro de terceira via, a Cedae é, sob vários aspectos, um pequeno pedaço. Entretanto, do ponto de vista político, ela ganhou uma dimensão emblemática: é a única estatal que, chegando às vésperas de dois leilões marcados por seu acionista majoritário, nos quais estavam inscritos poderosos grupos internacionais, venceu uma batalha contra a privatização no decorrer do primeiro governo de FHC. Tal fato aumenta significativamente a responsabilidade de seus trabalhadores com o êxito da próxima administração.
Para ter êxito em sua empreitada, os cedaenos vão precisar de muita ciência e arte. Nesta ciência, ocupa lugar destacado, sem dúvida, saber aprender com a experiência dos outros. No Brasil, existem experiências que podem ser muito úteis. Os casos da Sabesp e da Caesb, dentre outros, são exemplos disto e, mesmo durante o governo Marcello Alencar, a ASEAC iniciou um intercâmbio proveitoso com técnicos dessas empresas. Agora, as condições para potencializá-lo são excepcionais. E com os recursos de telecomunicação e da informática que temos hoje não precisaremos ir a Paris ou a Roma para conhecer detalhes da experiência dos franceses e dos italianos.
Outra fonte de êxito será a avaliação crítica e talvez a retomada de projetos surgidos anteriormente na Cedae que, nascidos em condições adversas ou esbarrando com elas, não puderam se desenvolver. O Projeto Condominial, o Proface e o Prosanear são alguns dos que devem ser examinados.
Existe um consenso que, no plano da política, é indispensável a mudança radical das relações da Cedae com os municípios e com seus usuários e a colocação, em outro patamar, das relações com o empresariado e com seus empregados. Neste sentido, várias propostas foram elaboradas, sendo a da Aseac uma das mais abrangentes.
A nosso ver, uma das pré-condições para o êxito é a colocação do usuário no centro das preocupações da Cedae e a criação de mecanismos que lhe confiram, direta ou indiretamente através das prefeituras, uma grande parcela de poder sobre as decisões da empresa. Como fazê-lo será uma questão de lucidez, coragem e sensibilidade política.
Claro, a Cedae tem que aprimorar seus mecanismos de operação, introduzir novas técnicas, multiplicar muitas vezes a eficiência de seu dia-a-dia. Não são questões fáceis de resolver. E aqui, mais uma vez, a solução passa também pela política. Em artigo publicado no último número deste jornal, a diretoria da Aseac aponta a unidade dos trabalhadores da Cedae como a “pedra de toque” na luta contra a privatização. Tal unidade é uma aquisição valiosa para avançar para a etapa seguinte; sua força pode ser a chave para construir uma nova empresa.
Mas seria equivocado pensar que ela se manterá nas mesmas bases. Até aqui, o cimento da unidade foi fornecido, principalmente, pela ameaça que vinha das forças privatizantes. Daqui pra frente, esta ameaça não vai desaparecer, mas não jogará mais o mesmo papel. Há que se construir, portanto, uma nova base para a unidade.
Aqui vão aparecer interesses diversos que deverão ser estimulados e costurados para formar um novo alicerce: a satisfação de melhorar o atendimento à população, a participação na gestão da empresa, a interação com outros atores sociais, a participação nos resultados, a alternância de períodos de trabalho com outros de reciclagem técnica deverão ser alguns dos elementos desta nova base.
A atenção que a batalha contra a privatização despertou na sociedade é um capital valioso. Ela poderá ser canalizada, por exemplo, para combater os vícios criados pela situação monopolista que a empresa goza em certas regiões. O futuro está cheio de esperanças mas também de problemas e desafios. Entre o modelo atual e a privatização, a Cedae, se quiser sobreviver como empresa pública, tem que encontrar sua terceira via. Para isto, não existem receitas acabadas e, muitas vezes, para avançar, teremos que fazer como dizia o poeta espanhol Antônio Machado: “caminhante não há caminho, se faz caminho ao andar”.
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