Gestão pública
População de São Gonçalo pede mais qualidade nos
serviços de
saneamento básico e faz opção clara pela
Os serviços de saneamento básico, principalmente
abastecimento de água e coleta e tratamento de esgotos sanitários, devem
obedecer o regime de gestão pública, de forma transparente e com controle
social, porque a privatização do setor é uma das piores desgraças para a
população”.
“Esta foi uma das principais conclusões do seminário
realizado na Câmara de Vereadores de São Gonçalo, no final de março, para
discutir o futuro do Saneamento no município, um dos mais populosos da Região
Metropolitana do Rio de Janeiro, concentrando cerca de um milhão de pessoas.
Parte de uma série de encontros promovidos pela Câmara, o
seminário, realizado por iniciativa do vereador Miguel Moraes, no Dia Mundial
da Água, reuniu vereadores e diversas lideranças comunitárias e empresariais da
região, além de representantes de trabalhadores do setor, técnicos da CEDAE e
da sociedade local, além do presidente da Câmara, Dilvan Aguiar. Representando
a CEDAE, estiveram presentes o Superintendente da Região Leste da CEDAE,
Ricardo Branco, e o assessor da Área, Marco Brito Chacon. Os presidentes das
principais entidades de trabalhadores da CEDAE, entre eles Flávio Guedes, da
ASEAC; Vicente Arantes, da ASAPAE; Marcos Lara, da AFTAE; Erilza Zózimo Valatão
Ferzeli, do sindicato de Campos; Carlos Eduardo Peixoto Xavier (o Campista), do
Sindicato de Niterói; e Francisco Ferreira, do Sintsama.
O vereador Miguel Moraes ressaltou a preocupação da Câmara de
Vereadores com a qualidade de vida da população. E reconheceu as dificuldades
que os técnicos da CEDAE enfrentam para garantir a qualidade dos serviços,
especialmente na área de esgotos. “A presença deles aqui, no entanto,
demonstra o interesse da empresa e dos sanitaristas em encontrar soluções”,
afirmou. O vereador convocou a população a participar das discussões em busca
dessas soluções, “pois não adianta ficar nos bairros reclamando. A participação
é fundamental para que os problemas possam ser resolvidos”, disse.
Situação difícil
Coube ao engenheiro Marco Brito Chacon traçar um quadro das
dificuldades técnicas que a CEDAE enfrenta para operar os serviços em São
Gonçalo. Isso ocorre, segundo ele, devido à estrutura de saneamento que foi
montada há cerca de 100 anos, cujo sistema foi concebido para atender
basicamente à população de Niterói. “Ao longo do tempo, nunca se fez nada
diretamente para São Gonçalo. Todas as linhas adutoras foram feitas para
Niterói. Há um século se trabalha para Niterói, mas a CEDAE só tem 30 anos”,
afirmou Chacon.
Devido a isso, as periferias e as partes altas do município
sofrem com o problema, “porque o sistema atendia bem 50 mil, 100 mil, mas um
milhão de pessoas fica mais difícil. Hoje, as operações têm de ser feitas em
cima de manobras”. Além disso, a região cresceu desordenadamente e continua
crescendo: “constrói-se uma casa, depois outra em cima e mais outra... Para
atender a toda a população, o abastecimento teria de ser setorizado, com
grandes reservatórios”, explicou.
Utilizando slides, o superintendente da CEDAE, Ricardo
Branco,por sua vez, mostrou aos presentes a estrutura da CEDAE para atender São
Gonçalo e falou da responsabilidade social da empresa para manter os serviços,
tendo em vista o déficit existente na receita. Segundo ele, sem considerar a
área de Alcântara, a CEDAE fatura R$ 2,8 milhões/mês, mas só arrecada R$ 2
milhões. “A evasão parece pequena, mas não é, pois nós não estamos
contabilizando aqueles consumidores que não pagam há mais de um ano, porque
somente o ato de emitir a conta já representa custo”, afirmou Branco. Segundo
ele, a evasão de receita chega a 53%, “e nós não cortamos o fornecimento,
porque nosso objetivo não é o lucro financeiro, mas social”.
O Superintendente adiantou que a inadimplência (dívidas com
mais de um ano) dos consumidores com a CEDAE em São Gonçalo chega a R$ 2
milhões, acrescida de mais R$ 1 milhão da área de Alcântara. O município tem
160 mil ligações cadastradas, das quais 58 mil são hidrometradas, e 183 mil
economias. Isso representa o atendimento a cerca de 90% dos habitantes –
aproximadamente 850 mil pessoas das 950 mil que habitam o município, segundo o
último censo do IBGE.
Ricardo Branco informou ainda que São Gonçalo dispõe de 1,5
milhão de metros de tubos. O tratamento e a coleta de esgotos atendem 43,2 km2 da área total de 248 km2 do município, beneficiando cerca de 40%.
Segundo o engenheiro, somente o município de Niterói, quando os serviços foram
transferidos à iniciativa privada, dispunha de atendimento a 78% da população
com água tratada e 73% com coleta e tratamento de esgotos. Ou seja, apenas 20%
não eram contemplados com abastecimento de água.
Branco informou que a CEDAE cobra 80% da conta dos serviços
de esgoto, enquanto em Niterói a conta é 100%. E a diferença é que, em caso de
inadimplência, a CEDAE não corta os serviços. “Chama o cliente para negociar,
parcelando a dívida em até 60 vezes”. O superintendente disse ainda que a
tarifa da Águas de Niterói chega a ser 120% maior do que a da CEDAE, que
fornece o metro cúbico de água por R$ 0,30 para a empresa privada, ao passo que
o custo de produção chega a R$ 0,80/m3.
Essa defasagem entre o custo real e o preço final cobrado à Águas de Niterói se
deve a um “estranho” contrato firmado entre o governador Marcello Alencar, no
final da gestão, com a prefeitura de Niterói e a concessionária privada. Hoje,
a Águas de Niterói cobra do consumidor R$ 32,00 por cada 15 m3 de água, enquanto a CEDAE pratica uma tarifa
de R$ 15,00 pelos mesmos 15 m3.
Água ameaçada
Presente ao encontro, o presidente da ASEAC fez um alerta
para o problema da degradação das fontes hídricas do Estado do Rio, do qual São
Gonçalo não está livre. Flávio Guedes lembrou que a Região Metropolitana do Rio
já perdeu duas das quatro grandes estações de tratamento que tinha (Santos
Malheiro e ETA Caxias), depois que a água dos rios que alimentavam essas ETAs
se tornou intratável.
Hoje, segundo ele, os rios que formam o sistema
Imunana/Laranjal – Macacu, Caceribu e Guapi-a-çu – enfrentam problemas de
vazão, que podem se transformar em transtornos para a população no futuro
próximo. “O rio Caceribu também já se perdeu. E os dois que sobraram estão
abandonados, assoreados e poluídos, sem proteção nos pontos de recarga do
lençol freático. Eu venho alertando para o problema, pois se parar de chover
como ocorreu recentemente, há cerca de dois anos, a população vai ficar sem
água”, advertiu o engenheiro.
Flávio Guedes explicou que a Região Metropolitana ainda
dispõe da ETA Guandu, mas o rio Paraíba do Sul, que a alimenta, também está
praticamente morto. “O rio está com um volume menor de água em função da
destruição da vegetação e fragilização da bacia hidrográfica como um todo. Os
peixes estão com deformações por causa dos despejos industriais sem o devido
tratamento”, alertou. Por isso, o presidente da ASEAC defende a parceria com os
municípios, inclusive São Gonçalo, que ele chama de “Parcerias Público-Públicas
– diferente da forma como o governo federal está propondo, que consiste na
entrega dos sistemas de saneamento às empreiteiras. E esta parceria pressupõe a
proteção prioritária aos mananciais”.
O engenheiro da CEDAE lembrou ainda que o Brasil é
privilegiado em volume de água doce, mas cuida mal desses recursos. O Aquífero
Guarani é um exemplo disso: dispõe de 50 mil km3 cúbicos de água – a maior reserva subterrânea de água do mundo
– que já sofre o processo de degradação. “Gostaria de ver o poder público fazer
uma administração para os nossos filhos, para que, daqui a 10, 20, 30 anos,
eles possam ter uma água de boa qualidade”, concluiu.
Conselho gestor
Entre os participantes da sociedade civil, o presidente da
Federação das Associações de Moradores de São Gonçalo (Unibairros), Antônio
Pinheiro, que representa 201 entidades, defendeu a criação de um Conselho
gestor para o saneamento, com a participação da sociedade nas discussões e
definições de prioridades, na execução dos projetos e na fiscalização das
verbas.
“Os funcionários da CEDAE são bons, atenciosos; muitas vezes
querem ajudar, resolver os problemas, mas não conseguem. E também falta
planejamento, porque a politicagem não deixa”, reclamou. Segundo o líder
comunitário, “a população não quer água somente no dia da eleição, quer água
nos canos o ano inteiro”.
O vereador Jorge Mariola apoiou a idéia de criação do
Conselho Gestor. E disse que a população aguarda a entrada em operação dos
reservatórios de Marques Maneta e Colubandê, construídos dentro do Programa de
Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), que poderão ajudar a equilibrar a
distribuição de água em São Gonçalo.
O vereador José Augusto, por sua vez, reconheceu a
competência da CEDAE para operar os serviços de saneamento, mas defendeu um
cuidado maior também com as questões ambientais, principalmente a preservação
das fontes de água do Estado. “Sou radicalmente contra a privatização, mas
quero uma gestão pública de qualidade”, concluiu.
Por sua
vez, o presidente do grupo “Nosso Pedaço”, afirmou que a CEDAE é a “Bola da
Vez” no processo de privatização. “Está sucateada e mal administrada. Por isso,
não consegue recursos para atender as necessidades de São Gonçalo e de outros
municípios”, afirmou. Ele também reforçou a proposta de implantação de um
conselho gestor paritário, com maioria formada pelos empregados da CEDAE e pela
sociedade civil. “Se deixarmos as coisas nas mãos do Executivo, a bomba vai
acabar estourando é nas nossas mãos”, alertou.
