Dívida com a Light ameaça abastecimento
Justiça defere pedido da Light e vai oficiar Estado, prefeitura e CEDAE sobre possibilidade de corte no fornecimento de energia. Se for cumprida, decisão pode parar os sistemas Guandu, Lameirão e Imunana/Laranjal. Light está invocando também a Lei de Responsabilidade Fiscal para os administradores da companhia
O fornecimento de
energia elétrica às unidades operacionais da CEDAE poderá ser interrompido pela
Light a qualquer momento, por ordem da Justiça, devido a falta de pagamento das
contas mensais, estimadas em R$ 11 milhões, que projetam uma dívida acumulada
em torno de R$ 157 milhões. O corte no fornecimento pode atingir inclusive à
estação de tratamento de água do Guandu, que atende 80% da Região Metropolitana
do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense; a elevatória do Lameirão, responsável
pelo bombeamento da água tratada no Guandu; e o Sistema Imunana/Laranjal, que
abastece Niterói, São Gonçalo, Itaboraí
e Paquetá, deixando quase 10 milhões de pessoas sem água, com prejuízos
idênticos ao sistema de bombeamento de esgotos domésticos.
A informação
foi passada ao Jornal da ASEAC, em caráter oficial, pela superintendente de
Comunicação da Light, Cristina Calmon, respondendo a uma série de perguntas
enviadas pela reportagem do jornal, acerca da situação da dívida da CEDAE com a
empresa. Segundo informações da concessionária de energia elétrica, das contas
referentes ao consumo mensal, de R$ 11 milhões, a empresa vem pagando menos de
2% desse valor, o que representa cerca de R$ 220 mil. De acordo ainda com a
Light, os pagamentos são esporádicos e não têm regularidade. “Em outubro, foram
pagos apenas R$ 162 mil e, em novembro, tão somente R$ 74 Mil”, garante a
empresa.
O mais grave
dessa situação é que, em uma das ações movidas pela Light, a concessionária de
energia já entrou com petição ao Juiz para que oficie o Governo do Estado, a Prefeitura
do Rio de Janeiro e a CEDAE comunicado sobre o desligamento da energia em
unidades operacionais da CEDAE. A petição foi deferida e nos, próximos dias,
estes órgãos serão oficiados sobre a decisão. Em outra ação, a Light está
invocando a lei de responsabilidade fiscal dos administradores da CEDAE, com
pedido de liminar.
A exemplo do
que fez na última edição deste Jornal (setembro/outubro), a ASEAC tentou, mais
uma vez, ouvir a direção da CEDAE sobre o assunto, desta vez na pessoa do
presidente em exercício da empresa, Celso Almeida Parisi. Até o fechamento da
edição, porém, não obteve resposta ao pedido de entrevista. A única informação
oficial conseguida junto à Assessoria de Comunicação da CEDAE, publicada na
edição passada, é de que “a prioridade da empresa é com o pagamento de produtos
químicos para o tratamento da água, de pessoal e, por último, as despesas de
energia elétrica”, na qual se inclui a dívida acumulada cobrada pela Light na
Justiça.
De acordo ainda
com as informações fornecidas pela Assessoria do presidente, as negociações com
a Light estariam sendo encaminhadas pelo próprio governo do Estado, mas a
empresa não adiantou os termos dessa negociação nem de que forma a CEDAE
pretende equacionar o problema. A Light desmentiu essas negociações, inclusive
através do governo do Estado. Segundo a CEDAE, a dívida é antiga, não foi
constituída apenas nesta administração e vem se avolumando ao longo dos últimos
anos. Contudo, segundo a concessionária de energia, a dívida começou a se
acumular em abril de 2002.
Dívida preocupa
Segundo
técnicos da CEDAE, a situação da dívida com a Light está sendo examinada no
âmbito do próprio Conselho de Administração da empresa, que decidiu fazer uma
projeção de médio a longo prazo para equacioná-la. O objetivo é tentar
solucionar o problema sem prejudicar as operações da empresa, que tem a
responsabilidade de abastecer cerca de 12 milhões de pessoas em todo o estado
do Rio de Janeiro.
A decisão foi
priorizar o pagamento de pessoal, por razões legais e, em segundo lugar, a
compra de produtos químicos, de maneira que não houvesse prejuízos ao sistema
de abastecimento e à qualidade da água fornecida. Contudo, eles questionam a
inércia do problema, pois os meses vêm se passando sem que a dívida diminua. A
contrário, ela vem crescendo e ganhando um contorno perigoso para a empresa e
para a população. Acrescentam que, apesar de a atual diretoria ter consciência
do problema e se preocupar em buscar uma solução, não tem autonomia para isso,
pois os problemas da CEDAE, atualmente, por menor que sejam, acabam dependendo
de decisões diretas do governo do Estado.
Cristina Calmon -
Superintendente de Comunicação da Light
Jornal
da ASEAC - Qual o montante da dívida acumulada da CEDAE para com a
Light?
Cristina
Calmon - A dívida da CEDAE é de R$ 157
Milhões.
JA - Desde
quando esta dívida vem se acumulando?
Cristina
Calmon - Existem contas em aberto desde
abril/2002, portanto contas vencidas há mais de dois anos e meio.
JA - A
empresa está pagando as contas mensais?
Cristina
Calmon - Não. De um total de contas
mensais de cerca de R$ 11 Milhões, a CEDAE tem pago, nos últimos três meses,
uma média de menos de 2% desse valor.
JA - Qual
o valor que vem sendo pago mensalmente?
Cristina
Calmon - Os pagamentos efetuados pela
CEDAE são esporádicos e pouco significativos em comparação com os valores das
contas de energia elétrica faturadas mensalmente. Não há regularidade. Em
outubro foram pagos apenas R$ 162 Mil e, em novembro, tão somente R$ 74 Mil.
JA - Desde
quando existe o parcelamento da dívida?
Cristina
Calmon - Não há parcelamento de dívida.
Pelo contrário, a dívida vem aumentando à razão de aproximadamente R$ 11
Milhões por mês.
JA - Mas
surgiram informações acerca de parcelamento. Algo chegou a ser pago?
Cristina
Calmon - Não há parcelamento de dívida e,
portanto, nenhum valor atrasado foi pago.
JA - As
contas referentes aos gastos de energia das estações Guandu/Lameirão e Laranjal
estão sendo pagas?
Cristina
Calmon - Não estão sendo pagas.
JA - Existe
o risco de interrupção do fornecimento de energia?
Cristina
Calmon - Existe, pois a legislação do
setor de energia elétrica faculta a interrupção do fornecimento por falta de
pagamento, mesmo no caso de serviços públicos.
JA -
Existe alguma negociação em andamento com a empresa e/ou com o governo do Estado?
Cristina
Calmon - Entre a Light e a CEDAE não há
negociação em andamento.Entre a Light e Governo do Estado estão havendo
contatos mas não há negociação formal em curso.
JA - Como
está a questão judicialmente?
Cristina
Calmon - Há duas ações em andamento: Uma
de cobrança, na qual a CEDAE pediu perícia sobre a dívida, já concluída, que
confirma o débito cobrado pela Light. Nesta ação, a Light entrou com petição ao
Juiz para que oficie o Governo do Estado, a Prefeitura do Rio de Janeiro e a
CEDAE comunicado sobre o desligamento da energia em unidades operacionais da
CEDAE. A petição foi deferida e nos próximos dias estes órgãos serão oficiados
sobre a decisão. Outra invocando a lei de responsabilidade fiscal dos
administradores da CEDAE, com pedido de liminar.
JA -
Existe alguma negociação no sentido de que a Light aceite os “recebíveis”
(contas) da CEDAE como pagamento (ou garantia deles) e possibilidade de a questão ser resolvida
dessa forma?
Cristina
Calmon - Não existe. O que foi proposto à
Light é a transferência de parte de sua carteira de contas de clientes
inadimplentes. A Light não aceita este tipo de negociação. A Light só aceita
receber suas contas em espécie.
