Nova ameaça de privatização

Qualidade da água e... de vida, acima de tudo

 

Bióloga defende o caráter essencialmente técnico da CEDAE, em nome da qualidade

 

Já vai longe o tempo em que a mulher aceitava resignada o título de rainha do lar. Hoje elas disputam palmo a palmo seu espaço com os homens no mercado de trabalho. E, segundo o IBGE, já levam vantagem sobre eles em várias áreas. De acordo com as estatísticas do órgão, elas já somam cerca de 825 mil empresárias. Somente em 2003, 550 mil mulheres chegaram ao mercado de trabalho. Na CEDAE não é diferente: a mulher vem lutando e conquistando lugares importantes, antes só ocupados por homens.

 

Exemplo de determinação, coragem e profissionalismo, a bióloga Eliane Branco, há 14 anos lotada na ETA do Guandu, é  uma das mais ferrenhas defensoras da busca permanente da qualidade da água fornecida pela CEDAE. E, para isso, defende um esforço conjunto dos técnicos da companhia, para impedir que setores essencialmente técnicos da empresa acabem submetidos a uma gestão política, colocando em risco o objetivo-fim da empresa – a qualidade de vida da população.

 

Para a bióloga, esse risco já existe de fato e hoje preocupa a maioria dos técnicos da companhia, pois o grau de politização em algumas áreas chegou a um ponto muito perigoso. Segundo Eliane Branco, exemplo disso é o que acontece na maior estação de tratamento de água do mundo – a ETA do Guandu –  e vem deixando os técnicos sanitaristas sobressaltados. Na opinião dela, se a ETA do Guandu fosse hoje administrada com critérios essencialmente técnicos, dificilmente continuaria operando com a vazão atual, até que a qualidade da água bruta que chega à estação fosse reavaliada, de maneira a garantir a eficácia do processo de tratamento da água.

 

Com mais de 30 anos na companhia, Eliane não tem medo de falar dessa questão que, para ela, é muito séria e precisa ser colocada: “A gente chega a uma fase da vida em que a única coisa que importa é a responsabilidade com a sociedade e o compromisso com a profissão que abraçamos – a Biologia. Não dá para ver as coisas e se omitir. A vida é muito curta para a gente desperdiçar e deixar de fazer o que tem de ser feito. Estão politizando demais uma coisa que deve ser apenas técnica. Por isso, todas as demais companhias de saneamento estão andando para a frente, e a CEDAE está ficando para trás”, alerta Eliane, com a autoridade que seus mais de 30 anos de CEDAE (mais três de estágio não remunerado) lhe atestam.

 

Respeitada por sua competência e dedicação e admirada entre os colegas por sua franqueza, a bióloga, que é Analista de Qualidade, está na ETA do Guandu há cerca de 14 anos, onde montou praticamente toda a estrutura de hidrobiologia da estação. Segundo Eliane Branco, do ponto de vista biológico os laboratórios do Guandu estão preparados para fazer tudo. Mas muita coisa ainda se poderia fazer com baixo custo para melhorar o processo de análise de qualidade, mas depende de vontade política: “Existe, por exemplo, um sistema para detectar metais pesados, além da formação de trialometanos e toxicidade, que foi desenvolvido na Universidade Rural e apresentado à CEDAE, mas está dormitando nas gavetas da diretoria”, reclama. Segundo ela, esse sistema daria uma economia muito grande à CEDAE, que já dispõe do equipamento necessário, mas a diretoria prefere terceirizar o serviço, em vez de contratar um consultor que poderia treinar e capacitar todos os técnicos envolvidos com o laboratório.

 

– Infelizmente, estão dando muito pouca – ou quase nenhuma – prioridade à questão da qualidade. Eu venho lutando há 14 anos e só há cerca de seis, com apoio do Flávio Guedes, consegui montar uma estrutura melhor para detectar toxicidade na água bruta que chega à ETA do Guandu – explicou Eliane. Ela critica a terceirização do controle de qualidade, pois entende que a empresa deveria ter dado oportunidade aos técnicos da casa:

 

– Há coisas, por exemplo, que devem ser feitas por biólogos, por gente que conhece os aparelhos com intimidade. Por que terceirizar os laboratórios, se a empresa poderia ela própria executar o serviço e ainda ganhar dinheiro com isso? – questiona Eliane Branco. Mas para isso, segundo ela, a quantidade não pode ter mais prioridade do que a qualidade, e o trabalho do biólogo é fundamental para isso, adverte.

 

Com relação ao papel da mulher na CEDAE, ela acha que “as coisas estão mudando quanto ao aspecto profissional. Hoje, a mulher já ocupa o seu lugar de destaque na companhia. Posso citar várias, mas um exemplo que eu acho que é unanimidade é o da engenheira Maria Carmem, que foi diretora da empresa. A CEDAE tinha que ter 500 dela”, afirma Eliana.

Antes de encerrar a entrevista, Eliane Branco fez questão de citar e homenagear dois nomes: o colega de profissão e incentivador Evandro de Brito - “que não por acaso tem por trás uma grande mulher, a minha xará Eliane”, brinca ela – e a da sua mãe – dona Acy. “Era ela que, na época em que mulher ainda não trabalhava, ficava com meus filhos para que pudesse trabalhar”, lembrou Eliane, emocionada.

 

Profissionalismo e dedicação

                   

Mãe, amiga, profissional, mulher...

 

Mãe de João Marcello, 23 anos, médico, que já lhe deu um neto – João Vitor – e de Luiz Felipe, 22 anos, cursando atualmente o último ano de Direito na UFF, Eliane está temporariamente afastada da CEDAE por problemas de saúde.

 

Mas lembra com saudade daquela convivência cordial e amiga que existia antigamente na empresa, especialmente nas épocas de festas, como Natal e Ano Novo.

 

- Hoje a gente percebe que falta um pouco dessa identidade na CEDAE, que nós precisamos recuperar. Antes todos participavam de tudo, se preocupavam e se envolviam. Hoje, às vezes acontece um problema no Guandu e a gente nem fica sabendo – reclama Eliane.

 

Orgulhosa de pertencer à empresa, ela é formada em Biologia pela Souza Marques e Pós-graduada em Hidrobiologia pela UFRJ, extensão que fez por necessidade da própria CEDAE. Na empresa, Eliane começou na ETE da Ilha do Governador, de onde passou mais tarde para a Superintendência de Esgotos, em Botafogo. Eliane Branco trabalhou também na ETE de Realengo, antes de ser mandada para a estação da Penha, onde foi chefe dos laboratórios de esgotos. De lá foi trabalhar na estação de Lemos Cunha, onde montou o laboratório da ETE, e depois em Copacabana, antes de ser transferida para a ETA do Guandu.

 


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