Governo Garotinho
1999: vencida a era
Marcello Alencar, os fantasmas voltam a assombrar
Depois de enfrentar as turbulências do governo Marcello Alencar, a
eleição de Garotinho, diante de suas posições na campanha favoráveis à CEDAE
pública, soava como uma arpa aos ouvidos dos trabalhadores e da sociedade. O
presidente da ASEAC, Dario Mondego, e o vice, Paulino Cabral da Silva, trataram
logo de articular com os técnicos e demais diretores uma análise cuidadosa
sobre a difícil situação da CEDAE, para, a partir daí, formular e encaminhar ao
novo governador uma proposta de modelo de gestão, que pudesse resgatar o papel
de liderança que a Companhia sempre exerceu no setor de saneamento básico.
O documento foi
apresentado ao novo presidente da CEDAE nomeado, Marcos Montenegro, durante
reunião mantida com a direção da Aseac, na sede da entidade, no dia 22 de
dezembro, quando Montenegro foi ouvir as propostas dos técnicos destinadas a
reestruturar a Companhia. Aliás, aquela foi a primeira vez que um presidente da
CEDAE visitou a Aseac antes de ser empossado, para conversar com técnicos e
ouvir suas sugestões. Durante o encontro, Marcos Montenegro aproveitou a
oportunidade para elogiar a postura da Aseac no esforço que impediu a privatização
da CEDAE.
Ressurge a luta
Mas a aparente paz
restaurada com a mudança de governo logo voltou a ser abalada por uma decisão
do então prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira. Valendo-se de um acordo
assinado no último dia do governo Marcello Alencar entre o Estado e o Município
de Niterói, ele tentou assumir os serviços de saneamento em sua cidade. Essa
atitude viria a mobilizar novamente a ASEAC e a CEDAE, dando um novo ritmo à
luta contra a privatização da companhia.
Desde o fim de janeiro
de 1999, a Prefeitura de Niterói vinha tentando impor o convênio assinado entre
o Estado, o Município, a CEDAE e a concessionária privada Águas de Niterói, mas
encontrava a resistência dos trabalhadores e da própria direção da empresa.
A iniciativa do
prefeito Jorge Roberto Silveira, que na ocasião também era do mesmo partido do
governador Anthony Garotinho - PDT - provocou uma imediata reação da Aseac e
dos trabalhadores da empresa. No dia 5 de fevereiro, uma reunião de várias
entidades de trabalhadores e da sociedade civil decidiu montar um programa de
resistência às ameaças da prefeitura de invadir a sede da SURLE. Além de uma
grande manifestação, em Niterói, foi distribuída uma carta aberta à população,
mostrando os riscos que a privatização traria para o abastecimento de água.
Através do advogado e
jurista Marcelo Cerqueira, a Aseac e o sindicato de trabalhadores de Niterói
entraram com uma ação na Justiça, solicitando o cancelamento do convênio
assinado pelo ex-governador Marcello Alencar e pelo prefeito de Niterói, no
qual ele se baseava para tentar a transferência da CEDAE à concessionária Águas
de Niterói. A direção da ASEAC promoveu ainda encontro com as comunidades e
publicou uma série de matérias e artigos mostrando o risco de se fragmentar
sistemas integrados como o de Niterói. Mas todo o esforço foi inútil. Sem o
apoio do governo do Estado, que cruzou os braços às investidas físicas e
jurídicas da prefeitura de Niterói contra a companhia, a CEDAE acabou invadida
com apoio da própria polícia do governador – a PM – pela empresa Águas de
Niterói, que assumiu os serviços à força.
Teresópolis acirra a
luta
Mas a pressão vinha
como um turbilhão de todos os lados. E nem bem se refez dessa briga, a ASEAC já
se via forçada a entrar em outra. Em meados de 1999, o então prefeito de
Teresópolis, Mário Tricano, aprovou na Câmara de Vereadores local uma mensagem
transferindo ao Executivo os serviços de abastecimento de água operados pela
CEDAE. Em conjunto com os sindicatos dos Trabalhadores, dos Engenheiros, CREA e
outras entidades, a ASEAC conseguiu, depois de um longo processo de negociação com a sociedade local, líderes
empresariais, políticos e técnicos da área de saneamento básico, pressionar e
sensibilizar o prefeito Mário Tricano. Isso impediu que a proposta de
municipalização se convertesse em uma nova privatização dos serviços, que
permanecem até hoje sob controle da CEDAE.
Campos vira caso de
polícia
A luta da ASEAC se
estendeu também ao norte do Estado, onde a disputa pelo saneamento no município
de Campos virou caso de polícia. Apesar da forte resistência da ASEAC e dos
trabalhadores, a empresa Águas do Paraíba, vencedora de uma licitação
considerada irregular e na época “sub-judice”, resolveu assumir os serviços de
saneamento no município na marra. Isto, depois que, estranhamente, a
Procuradoria do Estado e do município de Campos deixaram correr “à revelia” o
processo que contestava na Justiça a licitação.
Durante vários dias o
clima ficou pesado em Campos, com os trabalhadores da CEDAE fazendo vigília para
não entregar a empresa à vencedora da licitação, realizada em março de 1996
pelo então prefeito Sérgio Mendes - expulso do partido pelo governador
Garotinho, que na ocasião, não concordou com a proposta de privatização da
CEDAE no município. O presidente do Sindicato de Campos, Hélio Anomal, teve que
se atracar com um segurança armado, que chegou a disparar tiros durante uma
manifestação contra a invasão da CEDAE.
