Estruturas regionais ameaçadas
AESabesp e ASEAC condenam o desmonte do patrimônio público do país
“A Secretaria de Saneamento
Ambiental (SNSA) deixou claro nos dois PLs que vai seguir aquilo que reza a
Constituição, interpretando que o município é o titular dos serviços. Mas não é
possível estabelecer um novo ambiente para o saneamento, deixando para trás
aquilo que está construído hoje e que funciona bem. Existem muitas disparidades
aqui no Brasil, que criam dificuldades para se fazer uma lei única para todo o
território nacional. Mas uma condição fundamental é que não seja destruído
aquilo que é positivo dentro do país.”
A afirmação é do vice-presidente da Associação
dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), Amauri Pollachi, que chamou atenção para
a importância de o setor se mobilizar agora, nesse momento de discussão da
proposta do Governo Federal. Segundo ele, pela primeira vez, depois de mais de
30 anos - quase 40 - “estamos com uma proposta de lei consistente sendo
colocado para discussão pública. Proposta inclusive da SNSA de fazer essa
discussão em todas as regiões do país e fomentá-la no âmbito do Congresso. Isso
é muito importante, mas nos preocupa a questão, que é a fonte de toda polêmica,
da titularidade relativa aos serviços”, afirmou.
A opinião dos técnicos da SABESP vem ao encontro
do que pensam os técnicos da CEDAE. Segundo o presidente da ASEAC, Paulino
Cabral, além do potencial técnico, as companhias estaduais guardam um
patrimônio público importante e são de fundamental importância para
democratizar o abastecimento de água, viabilizando abastecimento às comunidades
mais carentes. Paulino Cabral defende a gestão copartilhada entre estados e
municípios nas regiões metropolitanas, de forma a garantir a manutenção do
subsídio cruzado. Ele informou que pretende procurar os técnicos da Sabesp para
propor que, juntos desenvolvam um trabalho no sentido de sensibilizar a
sociedade e os políticos no Congresso para a importância de se garantir este
conceito na proposta do governo federal, durante a tramitação dos projetos.
Para o engenheiro paulista Amauri Pollachi,
existem muitas empresas, como a Sabesp, que têm padrões de serviços
reconhecidos pela população. “Em São Paulo, atuamos em 368 municípios e somos
reconhecidos pela população e pelo poder concedente, câmaras dos vereadores
etc. Estamos às vésperas de iniciar um processo de renovação de contratos de
concessão em diversos municípios. E é necessário que existam algumas garantias
no sentido de preservar essas boas práticas no setor de saneamento ambiental no
Brasil. Não se pode deixar isso se desmanchar somente com um aparato legal aí
colocado pelo Governo Federal”, alertou.
Uma das preocupações é que, diante dos PLs
propostos, alguns municípios sejam induzidos a não renovar os contratos, dando
uma direção diferente, que pode ser até a privatização, através de concessão ou
PPP. “Isso é algo que pode acontecer de fato. Eu creio que o prazo que está
sendo colocado de cinco anos para que haja uma readequação é importante, pois
cada município tem um plano de saneamento, uma política municipal de
saneamento”, afirmou. Também foi colocado um prazo de três anos, para que os
contratos de concessão existentes sejam adaptados às regras estabelecidas pela
lei. “Creio que esse é um prazo interessante para se fazer uma negociação no
âmbito das empresas estaduais com o poder municipal”, disse Amauri Pollachi.
Para ele, o fundamental é não perder aquilo que
foi conquistado. O engenheiro lembrou que pode existir alguns municípios que
queiram sair da esfera de gestão estadual e passar a administrar por si mesmo,
até fazer uma licitação para uma empresa privada. “Creio que isso é muito mais
difícil, se não existir a figura da concessão onerosa; quer dizer, o município
não vai poder vender aquela concessão para obter um valor que vai engordar seu
caixa, vai pagar dividas etc. Isso não existindo diminui muito a atratividade
para o município passar a administrar o serviço diretamente ou passar à
iniciativa privada. Agora, se o serviço está sendo feito de uma forma
irregular, não está atendendo a população local, dificilmente a companhia
estadual vai manter esse serviço, mesmo numa condição em que não exista essa
lei. Porque aí, a qualquer momento o município pode retomar a concessão,
criando um impasse judicial tanto com relação à concessão quanto à indenização
dos ativos ainda não amortizados”, afirmou.
Na visão do engenheiro da Sabesp, essa situação
de conflito já existe hoje. O que é necessário é que exista uma lei, no plano
federal, que dê mais tranqüilidade para investimentos, tanto da parte da
iniciativa privada quanto das próprias empresas estaduais que estão sob gestão
publica.
Amauri Pollachi acha que outra questão que tem
que ser muito bem esclarecida nos dois PLs é esta que trata dos subsídios cruzados.
“Nós, entidade Sabesp, defendemos que os subsídios cruzados têm que ser
colocados de forma absolutamente transparente. Agora, eles têm que ser tratados
regionalmente. Não é possível fazer uma transferência de município para
município diretamente, a não ser que se tenha um espaço com dois ou três
municípios somente convivendo ali, estabelecendo valores de tarifa. Mas
realmente é necessário haver transparência desse fluxo de subsídio de uma
região mais rica para uma mais desfavorecida”, salientou.
Para ele, os municípios
superavitários são quem sustentam os investimentos e a manutenção em cidades de
menor porte ou totalmente deficitárias. Por isso, é necessário que haja
compartilhamento. Ele explicou que São Paulo está dentro de uma região
metropolitana que tem 39 municípios, muitos deles com o IDH baixíssimo, que têm
necessidade de investimentos para a melhoria do seu ambiente de saneamento
ambiental. “Uma cidade como São Paulo tem, aproximadamente, metade da sua
população - cerca de 10 milhões - morando em favelas ou em habitações
subnormais, loteamentos clandestinos ou cortiços. E aí é necessário promover
uma transferência de recursos, até mesmo dentro da própria cidade.
