Tentativa de
parceria vira rota de colisão
Modelo implantado em Ribeirão Preto provoca reação da população
A grande questão
com relação à aplicação das Parcerias Público- Privadas no Saneamento é o
perfil social do setor, que exige investimentos públicos, já que não existem
ilhas de salubridade, e as doenças do Saneamento podem proliferar se não houver
uma política de universalização dos serviços. Logo, a questão econômica,
fundamental para que as PPPs tenham atrativo, impede a sua aplicação em
serviços essenciais como distribuição da água, coleta e tratamento do esgotos e
resíduos sólidos.
Aliás, a
prioridade social embutida no Saneamento foi uma das bandeiras do Partido dos
Trabalhadores (PT) para impedir o governo anterior (FHC) de privatizar o Setor.
Serviu também de plataforma para que o então candidato Luís Inácio Lula da
Silva chegasse à Presidência da República. E é hoje motivo de dissidências
dentro do PT. Ou melhor, dentro do governo, apesar da ordem explicita do
Primeiro Ministro, quer dizer, do ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, de
que o PT não pode expor suas divergências para a mídia.
Fundada para
defender o caráter público do Setor, a Frente Nacional do Saneamento Ambiental
reúne em seus quadros dezenas de petistas militantes, alguns dos quais ocupando
cargos relevantes no governo Lula. E são eles que voltam a lembrar: enquanto
setores como energia e telefonia apresentam demanda de cerca de 20% para uso
residencial e 80% para organizações econômicas, o perfil do setor de Saneamento
Ambiental é inversamente proporcional, com característica estritamente social.
Ou seja, a demanda residencial corresponde a 80% e a econômica a 20%.
Esses números
demonstram a necessidade e responsabilidade do poder público em promover
eqüitativamente a universalização dos serviços de abastecimento de água, de
esgotamento sanitário e de coleta dos resíduos sólidos. Por isso, o espaço das
PPPs neste segmento restringe-se à
prestação de serviços complementares
para os órgãos públicos, gestores dos serviços de Saneamento.
Um exemplo de
Parceria Público Privada no setor de Saneamento no país, que começou a ser
implantado em 1992, pelo então prefeito do município paulista de Ribeirão
Preto, Antônio Pallocci, hoje Ministro da Fazenda do governo Lula, demonstra isso. Motivo de reclamações pela
população, a parceria do Departamento de Águas e Esgotos de Ribeirão Preto
(Daerp) com a empresa privada Ambient está em análise no Ministério Público,
devido, principalmente, ao aumento das tarifas dos serviços de Saneamento.
Segundo denúncias
de cidadãos, o valor da tarifa de água e esgoto aumentou mais do que o dobro,
para atender ao contrato de parceria. Além disso, o Daerp é obrigado a bancar a
eventual inadimplência dos consumidores. Arrecadando ou não, o órgão público tem de pagar à Ambient a quantia mensal
de R$ 1,9 milhão pelo tratamento de esgotos da cidade, independente de parte da
população não pagar a conta e apenas 60% ter acesso ao tratamento dos esgotos.
Em função dessa
exigência contratual, o valor da tarifa de esgotos é mais do que o dobro da
conta d’água e é cobrado de toda a população, mesmo do percentual de 40% que
não têm o serviço.
A questão está
provocando problemas, tanto que o promotor Sebastião Sérgio da Silveira, do
Ministério Público do município, está esperando uma decisão da Procuradoria
Geral do Estado de São Paulo para tomar uma atitude contra essa PPP. Ele disse
ao Jornal da ASEAC que tem recebido diariamente centenas de pessoas na
Promotoria para reclamar do valor da tarifa de esgotos. Segundo o Promotor, o Procurador Geral do
Estado de São Paulo, Luís Antônio Guimarães Marrey, já instaurou um procedimento
(Protocolado) na Procuradoria para decidir se vai ou não propor uma Ação
Declaratória de Inconstitucionalidade (ADIN) contra a lei que possibilitou, no
ano passado, um aumento de 26,4% por conta da inclusão na conta da água da taxa
de tratamento de esgotos. “Caso, a Procuradoria não entre com a ADIN, o
Ministério Público de Ribeirão vai propor uma Ação Civil Pública”.
Explicou que o
aumento da conta da água de Ribeirão Preto, autorizado pelo prefeito Gilberto
Maggioni (PT), é ilegal por dois motivos: primeiro, criou uma espécie
tributária não prevista na Constituição (um adicional sobre tarifa); e,
segundo, esse serviço de tratamento de esgoto não é prestado ao contribuinte,
mas sim à coletividade. Logo, só pode ser custeado pelos impostos – finalizou.
