Estresse hídrico
Água escassa no Paraíba do Sul sugere crise ainda mais grave em
2004
Paulo Canedo e Jander Duarte/COPPE-UFRJ
A falta de
investimento no setor saneamento e o insensato uso de suas águas faz o velho
rio Paraíba do Sul se arrastar pelo seu vale com nítidos sinais de estresse
hídrico. A esse quadro já crônico de estresse juntou-se uma momentânea e aguda
carência de água, decorrente de sete anos de poucas chuvas, pondo em risco o
abastecimento d’água de quase 14 milhões de pessoas e agravando os problemas
locais de saúde pública.
Para permitir a
regularização temporal das águas do curso principal, quatro grandes
reservatórios armazenam um volume de 4,3 bilhões de metros cúbicos de água para
vencer os períodos de estiagem. Infelizmente, depois de 1996, quando os quatro
reservatórios ficaram cheios pela última vez, a região sudeste vem sofrendo uma
das piores secas das últimas seis décadas. O ano de 2001 terminou com o
conjunto de reservatórios em estado precário de reservação, com somente 7 %
acima do nível mínimo operacional. Nessa ocasião, as reservas de água de todo o
sudeste brasileiro estavam se esgotando, o que acabou obrigando o país a entrar
no racionamento compulsório de energia elétrica.
O ano de 2002 começou
com chuvas bem generosas, recuperando parcialmente os estoques d’água da região
sudeste e afastando o perigo de nova crise de energia elétrica. No entanto, as chuvas que caíram por todo o
sudeste não foram nada abundantes no interior do vale do rio Paraíba do Sul,
mantendo a nossa região em regime de criticidade. Assim, o ano de 2002 terminou com o vale do rio Paraíba do Sul em
situação pior do que em 2001 e os reservatórios ficaram com somente 4,9 % acima
do nível mínimo operacional.
Desde então, esses
reservatórios estão sendo operados da forma mais econômica possível, liberando,
estritamente, a porção de água necessária para atender os requisitos mínimos de
cada trecho da bacia. Os belos lagos da
serra paulista estão completamente secos, afastando os turistas e trazendo problemas
econômicos à região. Os municípios fluminenses ribeirinhos estão tendo que
conviver com sérios problemas de qualidade de água, pois a concentração dos
poluentes aumentou vertiginosamente com a seca. Uma única liberação notável da
água armazenada aconteceu quando do acidente ecológico de Cataguases, nos rios
Cágados e Pomba, para poder, emergencialmente, aumentar o poder de diluição
natural do rio.
O ano de 2003 começou
com um verão de muito poucas chuvas e o trimestre mais úmido terminou com a vegetação
da região mostrando os sinais de pouca água.
A partir daí, o vale do Paraíba do Sul entrou perigosamente no período
de estiagem de 2003, com temperaturas mais elevadas que a média e com suas
reservas hídricas em estado calamitoso. A situação, em julho de 2003, apontou a
necessidade de medidas emergenciais de racionalização do uso da água e de
combate a poluição, pois os quatro reservatórios apresentavam uma situação de
armazenamento nunca vista em toda a sua história.
Absolutamente nada
foi feito com relação ao combate à poluição, mas algumas medidas de
racionalização do uso da água, que se mostravam imperativas, foram tomadas na
bacia. As reservas de água acumuladas nos reservatórios não agüentariam sequer
suprir os valores mínimos recomendados para a transposição ao Guandu (119
m3/s) e para jusante de Sta. Cecília
(90 m3/s), pois os
reservatórios poderiam chegar ao nível mínimo operacional, deixando a região
metropolitana do Rio de Janeiro com desabastecimento a partir da primeira
semana de outubro de 2003
Tal constatação
acabou fazendo com que a região fluminense do vale do rio Paraíba do Sul
ficasse obrigada a um racionamento compulsório de água fluvial. A transposição foi limitada a 109 m3/s e o rio Paraíba, abaixo de Sta Cecília,
teve que se restringir a um fluxo de 51 m3/s. Ainda assim, essas restrições quantitativas talvez ainda não
fossem suficientes para garantir a salvaguarda de uma crise no abastecimento
público da região, pois a falta de medidas de combate à poluição poderia, por
vezes, impedir a tratabilidade dessa água para o consumo humano.
Como que para
compensar esse cenário infeliz, a segunda metade desse inverno e o princípio
dessa primavera foram pródigas em chuvas. Mais do que isso, o vale do Paraíba,
que havia ficado fora do circuito das chuvas por longos sete anos, teve as suas
terras submetidas a fortes precipitações, absolutamente improváveis para um
inverno que começou quente e seco. Esse inusitado fenômeno meteorológico acabou
afastando, pelo menos temporariamente, a crise operacional dos reservatórios da
Vale do Paraíba do Sul.
Em 2002, entre os
dias 25/set e 29/out, o volume armazenado nos reservatórios caiu de 12,0 para
4,9 % acima do nível mínimo operacional, isto é cerca de 7 % em 35 dias. Nesse
ano de 2003, esse mesmo período começou com os reservatórios armazenando
somente 6,5% acima do mínimo operacional, o que demonstra a gravidade da
situação.
Não fossem as chuvas
extemporâneas e o fato de os reservatórios terem sido deplecionados com a
máxima parcimônia, inevitavelmente teria ocorrido o desabastecimento dos 8,5
milhões de habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro. Apesar disso, o volume dos reservatórios
chegou a atingir a perigosa casa de 4,1% acima do nível mínimo
operacional.
Com a chegada de novo
período chuvoso, agora em novembro, é muito provável que consigamos ultrapassar
a crise de água de 2003 sem maiores conseqüências. No entanto, não sabemos o
quanto as futuras chuvas do verão serão capazes de recuperar os níveis dos
reservatórios. Se não chover mais do que a média histórica para o verão da
região, o ano de 2004 poderá ser tão crítico quanto ao de 2003, pois os
reservatórios, hoje extenuados, não conseguirão sequer ser enchidos até a sua
metade.
Considerando que a única
coisa boa de uma crise são os ensinamentos que ela nos deixa, devemos, pelo
menos, tratar de aprendê-los: (1) É indispensável que o rio Guandu tenha
imediatamente uma política clara de conservação de água, pela sua importância
estratégica para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro e para o complexo
industrial ali instalado; (2) Urge fazermos aprofundar a implementação da
Política Nacional dos Recursos Hídricos na bacia do rio Paraíba do Sul –
Guandu, de modo a racionalizar o insensato uso das águas desse vale; (3) São
inadiáveis ações que visem ao fortalecimento das empresas de saneamento e o
aumento dos investimentos no setor.
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