A Companhia de Saneamento de São Paulo (Sabesp) espera atingir este ano um lucro da ordem de R$ 600 milhões, dos quais pretende distribuir R$ 500 milhões aos seus acionistas, como resultado do bom desempenho que a empresa vem registrando desde que foi implantado o modelo descentralizado de gestão, criado pelo atual governo do estado como alternativa à proposta do governo federal de privatização do sistema de saneamento.
A informação foi dada pelo gerente do Departamento de Controladoria da Sabesp, Jeferson Barbosa, durante palestra para os técnicos da Cedae, a convite da ASEAC, sobre as sensíveis mudanças que a descentralização gerou para a empresa, em São Paulo. Abordando o tema Custos e descentralização no saneamento básico, o especialista em Sistemas de Custos disse que, até junho, a empresa já havia faturado R$ 1,590 milhão, registrando um lucro de R$ 324 milhões, depois de contabilizar prejuízos da ordem de R$ 223 milhões em 1994. Ele informou ainda que, este ano, a Sabesp deverá investir R$ 1,2 bilhão e, entre 1999 e 2002, a previsão é aplicar R$ 1,8 bilhão no sistema de saneamento paulista.
Fila na porta
O técnico da Sabesp informou que, atualmente, existem entre 40 e 50 municípios de São Paulo aguardando na fila para que a Companhia Estadual assuma a operação de seus serviços, sem falar de outros, como Biritiba Mirim, que eram operados pelo setor privado e agora integram o sistema Sabesp. Mas o caso mais interessante, segundo ele, é o de Limeira, “onde a Lyonnaise Des Eaux vai ser posta para fora e o prefeito já anunciou que os serviços vão passar para a Sabesp. Nós só não assumimos ainda por que não temos recursos suficientes, no momento, e, mesmo sendo rentável, a transferência gera uma saída de caixa imediata”, afirmou. Para Jeferson Barbosa, o interesse manifestado por um grande número de municípios em se integrarem à Sabesp é uma prova de que o sistema de saneamento estatal é perfeitamente viável e o caso de Limeira mostra “que a iniciativa privada já está dando com os burros n’água”.
Ao detalhar todo o histórico do processo, ele informou que a implantação do atual modelo de gestão da Sabesp exigiu esforços de todo o quadro da empresa, dos operários mais humildes ao presidente. Acrescentou que o projeto foi apresentado aos empregados como um desafio, através de seminários,. “A questão era a seguinte: Se a Lyonnaise Des Eaux pode dar 18,5% de rentabilidade sobre o patrimônio líquido e é uma estatal francesa, por que nós, que nos consideramos os melhores técnicos de saneamento do mundo, também não podemos? Com base nessa filosofia, começamos a enfrentar o desafio de superar R$ 643 milhões em dívidas vencidas e outros R$ 72 milhões em dívidas de curto prazo, além de acabar com o atendimento por sistema de rodízio (manobras) de cinco milhões de pessoas e conter uma debandada de municípios decididos a retirarem seus sistemas da Sabesp”, explicou.
Redesenhando a Sabesp
Segundo Jeferson Barbosa, diante deste desafio, o quadro ganhou forças para modificar a situação e diversos objetivos foram traçados. Uma das primeiras providências foi criar as Unidades de Negócios, cujo funcionamento, de forma descentralizada como se pretendia, dependia de alterações na estrutura organizacional da Sabesp, que passou a funcionar com uma presidência, vice-presidências para as áreas de produção, de distribuição e coleta na Região Metropolitana, uma para o litoral e outra para o interior do Estado, além de diretorias econômico-financeira, de assistência corporativa e técnica.
As unidades de negócios, hoje, funcionam de forma inteiramente autônoma, embora a empresa seja uma só. Cada gerente tem autonomia para investir e gastar, mas todos estão conscientes de que estão atrelados a um programa de metas definido por cada gerente e aprovado junto às suas respectivas diretorias. O cumprimento dessas metas é incentivado através da participação dos trabalhadores nos resultados da Companhia, mas existem punições quando elas não são cumpridas. Os sindicatos da categoria também recebem relatórios mensais sobre o andamento de cada área da Sabesp, para que possam acompanhar o desempenho. A estrutura funciona com sete Unidades de Negócios, distribuídas entre as vice-presidências e uma de Serviços, responsáveis pelo atendimento de cerca de 20 milhões de pessoas, das quais 17,1 milhões na Região Metropolitana. No interior, cerca de 297 municípios integram o Sistema.
Difícil começo
O gerente da Controladoria da Sabesp acrescentou que, no início, foi de fundamental importância adequar as tarifas à realidade e cuidar dos custos da Sabesp. “Chamamos as empresas prestadoras de serviços e renegociamos todos os contratos, adaptando-os à nova realidade de moeda estável, o que permitiu, de imediato, uma redução de 20% nos custos”, adiantou. Segundo ele, foi feito, também, um plano de incentivo à aposentadoria. Em seguida, partiu-se para a redução das perdas físicas. “E a manter as perdas que a Sabesp tinha, era melhor pedir demissão e montar uma fábrica de salva-vidas”, brincou Jeferson, cuja a equipe é composta por apenas três empregados. Aliás, segundo o técnico, a informatização da empresa também foi determinante.
Ao concluir, o gerente da Sabesp informou que a Companhia, que tem suas ações negociadas em Bolsa, já está se preparando para lançar seus papéis na Bolsa de Nova Iorque, dentro da proposta de diversificar as fontes externas de financiamento e captar recursos mais baratos, “porque o que nos mata são as taxas de juros e o serviço da dívida”, argumentou.
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