Relatório aponta irregularidades
Auditores recomendam revisão completa dos modelos gerenciais e de
controle
Registros inadequados na contabilidade, excesso de pessoal,
desatualização tecnológica de seus sistemas de informação, falta de contratos
entre os planos de custeio que justifiquem a movimentação financeira efetuada,
disparidade entre os números da contabilidade e do setor financeiro, gestão
inadequada com a caracterização de malversação dos recursos financeiros, gastos
sem licitação, fragilidade estatutária, transferência de recursos do Plano de
Assistência Familiar (Planaf) e de outros para fazer frente a despesas
administrativas e até reembolsos de gastos com remédio pouco convencional,
similar ao “viagra”.
Estas foram algumas das irregularidades encontradas, nos últimos
dois anos, pela auditoria realizada na CAC-Saúde, para apurar detalhes do
processo que levou a empresa à atual situação de crise e sugerir medidas para
reestruturar o plano de saúde dos empregados da CEDAE. O relatório, baseado em
dados dos últimos cinco anos, sugere uma revisão completa nos modelos
gerenciais e de controle da CAC, inclusive a reformulação de seu estatuto, de
forma a adequá-lo às novas exigências da legislação imposta pela Agência
Nacional de Saúde (ANS) para os sistemas de autogestão. “A delicada situação de
desequilíbrio financeiro”, de acordo com a análise, “exigirá medidas enérgicas
imediatas”, afirma o documento.
Os técnicos responsáveis consideraram fundamental aprimorar os
mecanismos de garantia e proteção dos beneficiários, de forma a promover as
regulamentações complementares necessárias. “Mesmo porque, atualmente, há uma
forte tendência de maior rigor dos processos de fiscalização da agência
reguladora, inclusive com responsabilização dos órgãos diretivos das entidades,
que não mais poderão atuar de forma tão isenta e sujeitos a interferências de
toda ordem das empresas patrocinadoras”, diz o relatório.
O relatório aponta diversas falhas que levaram a irregularidades e
recomenda uma completa revisão dos atuais critérios de crítica e análise de
faturas e auditorias, além de mais rigor na análise do faturamento dos prestadores
de serviços, que representam o maior peso nas despesas assistenciais. O
documento sugere também a urgente revisão da atual rede assistencial e o
estabelecimento de regras de credenciamento que possam evitar o comprometimento
do equilíbrio do plano.
De 1998 até agora, a CAC-Saúde acumulou um déficit de R$
21.999.431,00. Isto levou a administração da empresa a se utilizar, nos anos de
2001 e 2002, das reservas técnicas, principalmente do Planaf, de onde foram
transferidos mais de R$ 11 milhões, “para cobrir déficits dos outros planos e,
pior, das despesas administrativas”. Isso se deveu à atual metodologia
deficiente de gestão dos recursos da CAC e totalmente irregular do ponto de
vista contábil, que “dá margem para que qualquer má administração se utilize
dos recursos financeiros da forma que melhor lhe convier”. Como exemplo, os
auditores citaram um desvio para a conta administração de cerca de R$
6.000.000,00, oriundos principalmente da arrecadação do Planaf, nos últimos
dois anos, que deveriam ser utilizados única e exclusivamente com assistência
médica aos seus beneficiários. Agora, segundo a auditoria, a estrutura
contributiva, embora politicamente complicada, terá de ser renegociada com os
órgãos representativos da classe, a partir de um estudo atuarial minucioso, à
luz da nova legislação definida pela ANS.
O relatório questiona também a decisão da CAC de administrar alguns
planos de outras empresas – como o Metrô, SENGE, Sindicato dos Aduaneiros,
SEAERJ etc. E segundo apuraram os auditores, alguns deles encontram-se
devedores ou com pagamentos atrasados com a CAC, além de não oferecerem
quaisquer vantagens que possam justificá-los.
Entre outras irregularidades detectadas, chamou atenção da
auditoria o fato de não ter sido aprovado o plano orçamentário referente ao ano
de 2002, e que o de 2001 não contempla a grande maioria das despesas efetuadas
pela diretoria da época. “Esta é uma situação que consideramos grave, tendo em
vista poder abrir precedentes que certamente trarão conseqüências desastrosas para
o futuro da CAC”.
Examinando as atas de diretoria colegiada e do Conselho
Deliberativo, “com raras exceções vimos retratados assuntos importantes”. A
maioria das atas é referente a posses dos demais órgãos que compõem a
administração da CAC. Nas reuniões da diretoria colegiada, o grande volume de
assuntos tratados abordava exceções e autorizações extra-regulamentares, quase
transformadas em rotina: “Liberações de carências, coberturas adicionais não
previstas nos regulamentos, parcelamento de dívidas em correção etc. são alguns
dos exemplos que pudemos observar e que só contribuem para agravar ainda mais a
situação financeira da entidade”, afirma o documento da auditoria.
Na área de apoio logístico, os técnicos constataram a existência de
um grande volume de kits com material promocional e livro de credenciados, além
de cerca de 30 mil carteiras plásticas para identificação de associados, sem
possibilidade de utilização. “Causou-nos estranheza tanto desperdício, pois
como as despesas administrativas demonstram constantemente um déficit
operacional, estes gastos deveriam ter sido evitados ou postergados”. Apesar de
a CAC ter gasto cerca de R$ 1 milhão nos últimos cinco anos em informática, a
área continua desintegrada dos setores financeiro e contábil. Por fim, o
relatório considerou excessivos e fora dos padrões os gastos com veículos,
comparativamente a outros planos de autogestão.
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