Uma ETA a caminho do caos
Poluição agrava condições das águas do Guandu e
ameaça abastecimento.
Por mais irônico que possa parecer, cerca de oito
milhões de consumidores que residem no Rio de Janeiro e nos municípios da
Baixada Fluminense poderão ficar sem abastecimento, num futuro próximo, apesar
de haver excesso de água no rio Guandu. É que, com a degradação das águas dos
rios que compõem as bacias hidrográficas do Paraíba do Sul e do Guandu,
repositórios de toda sorte de poluição, na época das chuvas, verifica-se, ano a
ano, uma dificuldade cada vez maior para tornar potável a água bruta que chega
á Estação de Tratamento do Guandu, devido ao grande volume de matéria orgânica
e sujeira que o aumento do volume d’água carrega para a ETA. A permanecer este
crescente nível de degradação, rapidamente se atingirá períodos de
desabastecimento no Grande Rio, por impossibilidade de tratamento das águas do
rio Guandu.
A previsão dos técnicos da própria CEDAE era de
que essa situação ganhasse conotações mais sérias somente daqui a oito ou 10
anos, mas o acelerado processo de degradação das Bacias Hidrográficas do
Paraíba do Sul e do Guandu parece ter antecipado o problema, causado,
principalmente, pela devastação das matas ciliares, despejos industriais
irregulares, deposição de resíduos sólidos orgânicos e inorgânicos nas margens,
exploração ilegal de areia, despejo in natura de esgotos domésticos de vários
municípios que contribuem para essas bacias. A situação se agrava sensivelmente
devido à contribuição nefasta dos rios Poços, Queimados e Ipiranga, que também
sofrem com o mesmo tipo de poluição e deságuam próximos ao ponto de captação de
água bruta da ETA do Guandu.
No final de janeiro passado, por exemplo, quando
o Estado do Rio enfrentou um dos maiores índices pluviométricos dos últimos
anos, a qualidade das águas do rio Guandu piorou significativamente, atingindo
níveis recordes de turbidez (1800 u.t. e 4000 u.c.), provocando várias reduções
na produção da ETA do Guandu. A diminuição da produção foi adotada pelos
técnicos para que ficasse garantida a qualidade da água potável servida à
população do Grande Rio, conforme os parâmetros estabelecidos na Portaria
1469/00, do Ministério da Saúde. No auge da piora da qualidade da água bruta,
os técnicos da ETA do Guandu aplicaram todos os recursos possíveis, como a
aplicação de produtos químicos disponíveis no limite, mas ainda assim foi
necessário reduzir 75% da produção normal.
As dificuldades não são
novas e já vêm sendo alertadas há bastante tempo pelos técnicos da CEDAE, seja
na empresa ou através da ASEAC. Porém, não se vislumbra nenhuma ação mais
efetiva e as soluções são sistematicamente adiadas para o governo seguinte.
O problema da degradação ambiental e hídrica,
assim como a dificuldade crescente para tratar a água, já foi, inclusive,
assunto de reportagem da Rede Globo de Televisão, na qual o repórter Pedro
Bial, depois de mostrar as condições em que a água é captada pela CEDAE no rio
Guandu, qualificava os técnicos do Guandu como verdadeiros heróis, responsáveis
pelo “milagre” de tratar uma água naquelas condições: “A Estação de Tratamento
de Água do Guandu, a maior do mundo, faz milagre todo dia”, afirmou o repórter.
A reportagem fez com que o Conselho de Administração da CEDAE emitisse,
inclusive, em dezembro de 2001, um documento elogiando a capacidade técnica dos
funcionários da Diretoria de Produção e Tratamento, que engloba a Eta – a maior
do mundo em volume diário de água produzida.
Na verdade, o rápido processo de degradação que
atinge as Bacias Hidrográficas dos rios Guandu e Paraíba do Sul é uma
preocupação antiga dos técnicos da CEDAE, tendo em vista a importância dessas
bacias para a vida da cidade e do Estado do Rio de Janeiro. Oa técnicos vão
continuar denunciando o problema, para garantir a criação de um Plano de Bacia
para o Guandu, pelos Comitês da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul
(Ceivap) da Bacia Hidrográfica do Rio Guandu. E dessa forma, assegurar que os
recursos arrecadados pelo uso da água possam ser transformados em ações
efetivas de recuperação ambiental e hídrica daquelas bacias hidrográficas. A
ASEAC vai encaminhar um documento aos deputados da Comissão de Meio Ambiente da
ALERJ, em especial ao deputado Carlos Minc, exigindo mais atenção com a questão
da Bacia do Guandu.