Eleições 2002

 

Argumentos duvidosos

 

 

     Por sua vez, o ex-prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, candidato ao governo do Estado pelo PDT, ficou surpreso ao ser informado pela ASEAC, no debate, que o custo de produção da água para a CEDAE, assim como em outros estados, é de R$ 0,58/m3 e não de cerca de R$ 0,06/m3, conforme ele próprio havia divulgado, com base em informações que teria recebido oficialmente do governo do Estado.

Jorge Roberto Silveira defendeu a permanência da produção de água tratada nas mãos da CEDAE e a transferência da distribuição aos municípios, como fez em Niterói, para depois entregar o sistema à empresa privada Águas de Niterói. Mesmo assim, o candidato se propôs a discutir o assunto com os técnicos da CEDAE para esclarecer de vez essa dúvida sobre os custos da água. O ex-prefeito afirmou que, de acordo com os números que conhecera, na prática, no município de Niterói, a concessionária da prefeitura paga R$ 0,30/m3 de água. “Essa discussão ficou muito presente na minha cabeça, porque o governo do Estado queria cobrar R$ 0,58/m3, o que evidentemente forçaria a prefeitura de Niterói a aumentar em 300% a tarifa cobrada ao usuário”.

Paradoxalmente, Jorge Roberto disse que o Estado, em relação ao Saneamento, não pode abrir mão e nem pode pensar em privatizar a CEDAE. “A produção da água e a sua captação devem ser de responsabilidade do Estado, devendo permanecer em suas mãos, porque a água no século XXI será mais importante do que o petróleo. Isso passa a ser até uma questão de soberania nacional. A água não pode ficar nas mãos de particulares, e nós vamos buscar, junto à CEDAE, modelos que viabilizem, em um prazo curto, a distribuição da água e o seu tratamento”, afirmou.

Os argumentos do candidato, contudo, colidem com a realidade vivida pelos técnicos da CEDAE em Niterói. Segundo eles, hoje a companhia privada que explora a distribuição de água na cidade – a Águas de Niterói - realmente paga R$ 0,30/m3, mas depois de ficar um ano e meio pagando R$ 0,07, enquanto o custo médio da água tratada é de R$ 0,58/m3. A CEDAE, por sua vez, pratica uma tarifa social de R$ 3,93/m3, enquanto a tarifa praticada pela concessionária privada Águas de Niterói é de R$ 9,23 por metro cúbico – cerca de 154% maior

 

 

Jorge Roberto defende a entrega da distribuição de água aos municípios: caminho aberto à privatização

 

 

A verdade sobre o processo de privatização do Saneamento em Niterói

 

Na edição de janeiro/fevereiro último, o Jornal da ASEAC publicou artigo intitulado “Águas de Niterói X Consumidores - Relações no esgoto”, na qual denunciava que a concessionária privada vem incorrendo em uma prática lesiva aos consumidores no que se refere às tarifas, impondo margens brutas sobre os preços que paga a CEDAE de até 300%.

Segundo explicavam os técnicos, a Águas de Niterói pagava à CEDAE, na ocasião, apenas R$ 0,30/m3 pelo metro cúbico da água - quando a média nacional praticada e considerada justa é de R$ 0,58/m3 - e cobra aos consumidores R$ 1,20 pela mesma quantidade. Mesmo considerando os custos de mão de obra e da operação, eles garantem que a diferença de 300% é absurda. Segundo os técnicos, a prática já estava sendo contestada na Justiça por consumidores que se sentiam lesados com esta e outras práticas da concessionária da prefeitura de Niterói.

Para a direção da ASEAC, o comportamento da concessionária privada não chegava a ser surpresa. Na ocasião em que os serviços foram privatizados, através de um polêmico contrato assinado entre o ex-governador Marcello Alencar e o prefeito Jorge Roberto da Silveira, os técnicos já alertavam para as consequências e prejuízos aos usuários, especialmente para a população de baixa renda.

Logo no início, o contrato assinado já obrigava a CEDAE a subsidiar o consórcio privado Águas de Niterói, em cerca de R$ 2,4 milhões/mês. E este foi apenas um dos absurdos do documento, assinado no apagar das luzes do governo Marcello Alencar. O maior deles, sem dúvida, foi o fato de ignorar o conjunto de bens que formam o sistema de distribuição de água e de coleta de esgotos de Niterói (que não foi avaliado), para que a CEDAE fosse ressarcida pelos investimentos feitos no município e que, efetivamente, nunca foram reembolsados. No caso dos esgotos, além do contrato determinar que a CEDAE não tinha direito a um centavo sequer de indenização, ainda ignorava os investimentos – cerca de US$ 20 milhões – que estavam sendo feitos pelo Programa de Despoluição da Baía de Guanabara.

Além disso, houve um descalabro de ilegalidade do Poder Público, que não identificou os bens de propriedade do Estado. Pela Constituição, os bens não poderiam ser utilizados pela iniciativa privada para auferir lucros, como ocorre desde que a concessionária Águas de Niterói tomou posse de vários imóveis do Estado.

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