O mundo prepara o bote
O deputado Rodrigo Maia
(PFL/RJ), presidente da comissão encarregada de examinar o substitutivo
apresentado pelo relator do projeto do governo (PL 4147/01), deputado Adolfo
Marinho (PSDB/CE), que define a titularidade dos serviços de Saneamento nas
Regiões Metropolitanas, voltou à carga na tentativa de aprovar o substitutivo
na comissão e levar a matéria a Plenária.
Depois do fracasso da reunião extraordinária da
comissão convocada para o último dia 03 de abril, por falta de quórum, o
deputado decidiu insistir na discussão, convocando uma novo encontro ainda na
primeira quinzena do mês. Segundo fontes da Câmara dos Deputados, a decisão do
parlamentar carioca chegou a irritar o próprio relator da matéria, que
desconhecia a convocação. Outros observadores chegaram a levantar a hipótese de
que a pressa de Rodrigo Maia - filho do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia
- pudesse ser apenas “jogo de cena” do PFL.
De qualquer maneira, a possibilidade de o
projeto voltar à votação preocupou as entidades ligadas ao setor de Saneamento,
inclusive a ASEAC. Isto porque, fontes do Congresso davam como certo que a
matéria dificilmente seria votada em 20 02, por ser ano eleitoral, além de
encontrar resistências nos próprios partidos que integram a base de sustentação
do governo federal. Além disso, a mudança na lei, segundo técnicos do setor,
pode facilitar a privatização do Saneamento, que não é uma posição unânime
entre os atuais candidatos à presidência da República.
Herança perigosa
A verdade é que, da forma como vem mobilizando
as grandes corporações e chamando a atenção de especialistas e observadores nos
quatro cantos do planeta, o risco de a água ser transformada em mero “negócio”
hoje é um fato. Além do fator social, a questão envolve aspectos de soberania e
até mesmo de segurança nacional.
Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de
Direito Internacional, Antônio Celso Alves Pereira, em artigo recente publicado
no jornal O Globo, “em várias regiões do mundo, o crescimento populacional, as
mudanças climáticas e a destruição dos ecossistemas pelas diversas formas de
poluição ambiental agravam a escassez de água potável, o que, certamente, será
motivo de sérios conflitos internacionais”. Ele informou que, diante da ameaça
iminente, empresas como a Coca-Cola e a Nestlê estão comprando fontes de água
em diferentes pontos do mundo. “Comercializar água é e será, cada dia mais, um
grande negócio”, sentenciou.
Antônio Celso afirmou ainda que o problema da
água, em termos globais, é muito grave. “Basta atentarmos que, em todo o mundo,
mais de um bilhão de seres humanos enfrentam sérias dificuldades para conseguir
um mínimo de água potável”. Considerando as projeções que apontam para o
aumento do consumo doméstico mundial de água em torno de 70%, até 2025, a não
ser que se consiga expandir a reciclagem de água servida, racionalizar o
consumo e desenvolver, de imediato, tecnologias mais econômicas para dessalinizar
a água do mar, deslocar icebergues e criar chuva artificial, “não são nada
otimistas as possibilidades de se aumentar as disponibilidades de água potável
no planeta”.
O presidente da Sociedade Brasileira de Direito
Internacional explicou que, hoje, 97% do total de recursos hídricos da terra
são águas oceânicas, 2% estão nas calotas polares e apenas 1% representa a água
destinada ao consumo doméstico, irrigação e atividades industriais. “Brasil,
Rússia, China, Canadá, Indonésia e Estados Unidos detêm o controle de 60%
desses recursos hídricos utilizáveis”, explica. Citando o livro do general
português Loureiro dos Santos, ex-ministro da Defesa, ele afirma que, em 2010,
32 países dos cinco continentes deverão passar por graves crises derivadas da falta
de água potável. “Assim, o Brasil precisa traçar, desde já, um roteiro político
firme e objetivo, que nos permita, quando for o caso, ações de segurança nessa
matéria”, alerta. Afinal de contas, afirma Antônio Celso, em nosso território
estão as duas maiores bacias hidrográficas do mundo: a do Amazonas, que detém o
maior volume de água do mundo, e a do Prata.
“Este é mais um fator a atiçar a conhecida
cobiça internacional sobre a região. É bastante provável que enfrentaremos, nos
próximos anos, sérias dificuldades para preservá-la sob nossa soberania”,
advertiu.
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