por José Conrado de Souza*
“Não comemorem a morte da besta, homens;
a cadela que lhe deu a luz está no cio novamente”. Bertold Brecht
Analisando os problemas causados em empresas que
sofreram programas de reestruturação, a Revista Fortune publicou uma reportagem
sobre o tema:
“Se você quer destruir uma empresa, faça uma
reestruturação nela. A reestruturação provoca desemprego. Transforma os
empregados em pessoas auto-referentes, amedrontadas, preocupadas apenas cada
uma com o seu emprego e vendo no colega um inimigo potencial, uma vez que o
enxugamento, a redução do numero de empregados, só terminará com o fim da
empresa. Depois da primeira reestruturação, a empresa só vai parar de ser
reestruturada quando fechar suas portas. Com esse processo, o clima
organizacional da empresa vai se tornando, cada vez mais, insuportável. E se
constata que não há mais uma equipe trabalhando, mas, sim, um bando de
individualistas”.
Qualquer semelhança com a Petrobrás não é mera
coincidência.
Aliás, os petroleiros começaram a viver
intensamente as palavras unidades de negócios e reestruturação a partir de 16
de março de 1990, com a posse do Sr. Fernando Collor no cargo de presidente da
República. Alguns meses depois, os brasileiros descobriram que tinham votado em
alguém disposto a saquear o Brasil. Segundo a mídia, o Sr. Fernando Collor
assumiu o cargo de presidente com dois planos criminosos: o esquema PC–Farias,
ligado a falcatruas no Orçamento da União, e o esquema PP, ligado a negócios
escusos na Petrobrás.
O plano PP, elaborado por técnicos do governo
Collor, no Bolo de Noiva, inspirados no memorando do CS Fisrt Boston e no
decálogo da privatização do Banco Mundial, recomendava a divisão da Petrobrás
em unidades de negócios para competirem entre si por melhores resultados, uma
competição autofágica, facilitando, assim, a privatização ou destruição da
Petrobrás.
Revoltados e indignados, os brasileiros ocuparam
as ruas e praças para dizer não ao programa entreguista e delegaram ao maior
nacionalista do Brasil, o inesquecível e saudoso Barbosa Lima Sobrinho, a
tarefa de entregar ao Congresso Nacional o pedido de impeachment do Sr.
Fernando Collor, o que de fato ocorreu e o povo festejou intensamente achando
que estava livre daqueles esquemas entreguistas.
Ora, já dizia Bertold Brecht: “Não comemorem a
morte da besta, homens; a cadela que lhe deu a luz está no cio novamente”.
Esta frase de Brecht tem tudo a ver com o
anúncio do presidente da Petrobrás, o brasileiro naturalizado francês Henri
Philippe Reichstul, em 24 de outubro de 2000, da nova reestruturação da
empresa, dividindo-a em 40 unidades de negócios e 20 unidades corporativas. Um
modelo inadequado para companhias petrolíferas, que pode ser eficiente em
outros setores, mas quase levou a IBM e a British Petroleum à falência – os
prejuízos foram na ordem de US$ 4 bilhões e US$ 3 bilhões, respectivamente.
Segundo o presidente da Petrobrás, cada uma das
dez refinarias será uma unidade de negócios. Cada unidade vai cuidar melhor de
seus custos e buscar maiores resultados. Agora, os funcionários serão cobrados
pelos resultados e será possível saber exatamente o desempenho de cada área de
negócio. O modelo anterior permitia uma visão geral do negócio, com resultados
médios apurados pela soma de bons e maus desempenhos.
Ou seja, as refinarias da Petrobrás, com a nova
reestruturação, priorizarão os lucros individuais. Antes, existia um
planejamento que otimizava o suprimento do Brasil ao menor custo para a
sociedade e propiciando lucro à Petrobrás. E assim foi durante os últimos 47
anos, por meio de uma estrutura organizacional vencedora, colocando a Petrobrás
entre as 14 maiores empresas de petróleo do mundo e como a que mais contribuiu
para o desenvolvimento da prospecção e produção de petróleo em águas profundas.
Enquanto as grandes empresas multinacionais de
petróleo se fundem visando ao seu fortalecimento e, assim, uma maior
resistência ao processo de competição predatória inerente à indústria de
petróleo, o francês presidente da Petrobrás aprova um projeto de dividir a
empresa em 60 unidades. Só nos últimos dois anos, houve uma febre de fusões,
como a da Exxon com a Mobil e a britânica BP com a Amoco e depois com a Arco e,
mais recentemente, a Chevron com a Texaco.
A atual administração alega que a divisão da
Petrobrás em unidades de negócios vai permitir a identificação dos bons e dos
maus gerentes. Ora, se descontarmos o lucro obtido com a produção de petróleo,
provavelmente a Petrobrás apresentaria prejuízo em 2000. Os atuais diretores, o
presidente e o Conselho de Administração aprovaram a compra de duas refinarias
pequenas na Bolívia (duas chaleiras), um negócio que está no vermelho.
Aprovaram a troca de 30% da REFAP e 10% da produção do campo de Albacora leste
por uma refinaria velha, de mais de 75 anos, obsoleta, sem mercado e localizada
na Argentina, país cuja economia é um verdadeiro barril de pólvora, podendo
também se constituir em outro brutal prejuízo. E mais, já falam abertamente em
vender a REDUC, depois será a vez da REPLAN, da REPAR etc. Ou seja, a Petrobrás
está sendo administrada por maus gerentes que não respeitam a lei.
Afinal, a Lei 9.478, que quebrou o monopólio do
petróleo, estabeleceu que a União deveria ser proprietária de 50% mais uma das
ações ordinárias da Petrobrás, a fim de garantir ao governo o poder, de fato,
sobre as refinarias, os terminais, os campos de petróleo etc. da Petrobrás.
Ora, depois da venda de parte das ações
ordinárias da Petrobrás, a União é proprietária de apenas 55% das ações
ordinárias. Como a atual diretoria da Petrobrás vendeu 30% da REFAP, significa
que a Petrobrás é dona apenas de 70% da REFAP e, portanto, a União não tem mais
o poder sobre a REFAP porque 55% de 70% equivalem a 38,5%, ou seja, menos de
50%, o que é ilegal, segundo a Lei 9.478.
Não há dúvida, é o renascimento da besta. É o
plano Collor de destruição da Petrobrás resgatado e sendo aplicado com
criminosa competência pelos representantes do neoliberalismo e alguns chefes
que tiveram seus salários corrigidos em 100% e, por isso, adotam a postura de
não sei, não vi, não ouvi...
O resultado das eleições para prefeito foi um recado do povo, abominando a roubalheira e premiando a ética. É uma luz no fim do túnel. É a esperança de responsabilizarmos os que estão cometendo o crime de destruir a Petrobrás conforme exigência dos interesses alheios à nação, chegando ao absurdo, inclusive ignorando o Congresso Nacional e o povo, de anunciar a mudança do nome da Petrobrás, porque, segundo eles, não é bem aceito no exterior.
Com certeza, perto dessa turma que resgatou e
está aplicando o plano Collor de destruição da Petrobrás, dividindo-a em
unidades de negócios e entregando nossas reservas petrolíferas aos
estrangeiros, o Nicolau Lalau é um batedor de carteira – um mero trombadinha.
* José Conrado de
Souza é Diretor de Comunicação da Associação dos Engenheiros da Petrobrás
(Aepet)
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